Tenho pensado há dias sobre o final de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. É um desfecho confuso, provavelmente o ponto mais divisivo do filme, e que num primeiro momento parece até dispensável (não seria melhor se o filme tivesse 15 minutos a menos?). Em uma das últimas falas do filme surge o traço mais evidente do “se não gostou, foda-se” tão presente na filmografia de Kleber que, segundo o próprio diretor em seu filme “Retratos Fantasmas”, descreve o centro cidade de Recife. Quando Wagner Moura, agora interpretando Fernando, o filho de Armando, revela que aquela central de atendimento e doação de sangue já foi um cinema, o mesmo onde seu avô, seu Alexandre, trabalhou, Kleber evoca seu tema recorrente: a disputa pelos espaços e territórios, com destaque para o apagamento dos cinemas de rua. Pode parecer chato, uma quebra do ritmo que estava se construindo, um clímax que nunca chegou para que o diretor pudesse bater novamente na tecla que se repete em toda sua filmografia: o território. A rua de “Som ao Redor”, o prédio de “Aquarius” ou até mesmo o vilarejo de “Bacurau”. Por que então sacrificar um final hollywoodiano e possivelmente satisfatório para que, tal qual um disco arranhado, abordar e reforçar a mesma temática que já tange a anos?
Pode parecer redundante, mas é indispensável elogiar a cinematografia, as atuações e a produção deste filme, porque é justamente esse conjunto que permite ao roteiro multifacetado de Kleber atingir o final amargo do filme. Todos os elementos convergem para transformar a cidade de Recife em um espaço que expõe, sem pudor, suas próprias lendas, especificidades e, principalmente, seus personagens. O tempo excessivo que Marcelo leva para chegar à cidade de carro, a violência estampada nos jornais, o racismo velado, a corrupção policial e a perseguição política — tudo isso ganha força quando a narrativa nos situa em 1977, ano de lançamento de Tubarão, de Spielberg, que é constantemente referenciado. Assim como no clássico americano, “O Agente Secreto” se move sob a tensão de um perigo sempre iminente. É justamente aí que Recife se destaca não como um mero cenário para a trama, mas como uma personagem central. Seus becos não são meros “espaces quelconques” — isto é, lugares para intensificar o sentimento de inquietação mas abstraídos de características próprias — mas sim um local que apresenta intrigas presentes em quase todo o Brasil, porém sob uma óptica recifense. Não seria exatamente isto que valorização da lenda da Perna Cabeluda busca? Explicitar como a população da cidade reagia especificamente à violência da época? Esta valorização e regionalismo parece sumir mesmo no fim do filme: o hospital se coloca exatamente como este lugar abstraído de um contexto, uma estrutura física e social replicada no Brasil inteiro. Hospitais são importantes? Sim, mas o lugar de identidade onde existia aquele cinema agora é um “não-lugar” (Augé).
Tudo parecia se encerrar perfeitamente quando, no tempo presente, a jovem pesquisadora encontra um jornal noticiando a morte de Armando. A interrupção abrupta e sem explicações parecia coerente — exatamente como seu Alexandre (agora transformado em um personagem mais que canônico no Kleber Cinematic Universe) havia antecipado no segundo capítulo do filme: os responsáveis pela perseguição não seriam capturados ou punidos. E assim aconteceu, tanto na ficção de Kleber quanto na realidade histórica dos inúmeros anistiados por crimes cometidos durante a ditadura militar no Brasil. No entanto, é exatamente nos minutos finais que Kleber aprofunda e subverte essa lógica. A personagem que até então funcionava como uma “imagem-memória” deleuziana — uma materialização da narração em off destinada a situar o espectador no tempo e conectar os pontos da trama — transforma-se em protagonista, inaugurando uma nova imagem-ação. A universitária envolvida no projeto de pesquisa revela, de fato, um compromisso com a memória, compreendendo-a como território de conflito e de disputa. Para Mark Fisher, isso faz total sentido: reordenar e remontar imagens nos permite reativar a potência da memória e contar histórias capazes de imaginar futuros perdidos. É curioso pensar que minha reação imediata ao final foi amarga, e só depois percebi como este parecia falar diretamente comigo. O desfecho é, na verdade, um convite de Kleber para que imaginemos esses futuros perdidos, para que usemos nossa memória como campo de disputa — não só virtual, mas concreta. Ao tirar a jovem do lugar de espectadora e colocá-la dentro da história, o filme nos sugere o mesmo gesto: deixar de apenas observar e passar a agir. Talvez seja exatamente isso que devamos fazer.
-Aldo
