Um mal é um mal, Stregobor […] Menor, maior, médio, tanto faz… As proporções são convencionadas e as fronteiras, imprecisas. […] Mas, se me couber escolher entre dois males, prefiro abster-me por completo da escolha.
SAPKOWSKI, Andrzej. O Último Desejo.
“Um mal é um mal, Stregobor”, assim começa a passagem mais intrigante de toda a obra de Andrzej Sapkowski, ao menos a mim. “Menor, maior, médio, tanto faz”, dizia o protagonista ao ardiloso mago Stregobor, diante de um dilema moral clássico: a escolha entre dois males.
Afinal, seria o melhor caminho não engajar com o mal em nenhuma forma?
Longe de mim responder a algo do tipo, nunca ocupei-me de utopias. O mal encarna-se independentemente da nossa recusa em apoiá-lo ou não. Nossa escolha nunca foi entre engajar ou não com o mal, mas sim julgar com qual mal temos preferência a engajar mais. A não escolha é sempre mais beneficial a um dos lados, ou seja, não escolher é em si um subterfúgio para disfarçar-se a escolha, é a epítome da má-fé sartreana: é uma tentativa não apenas de fugir da liberdade radical que define a condição humana, mas também da responsabilidade que incide sobre ela.
É impossível não escolher de fato. Há sempre um viés, mesmo que mínimo, a um dos lados, da mesma forma que sempre haverá consequências, das quais a fuga que isentar-se traz é meramente ilusória. Ao esconder-se através da inação, o protagonista de Sapkowski acaba por trazer o pior dos resultados possíveis: um massacre que para sempre lhe renderia o título infame de carniceiro.
Abster-se por completo da escolha nunca foi uma opção. A mera tentativa é uma desonestidade para com o outro e também si mesmo, e, em sua covardia, ela acaba por descartar completamente as esperanças de um resultado mesmo que minimamente positivo, apoiando-se na Moral do Escravo de Nietzsche com a fuga das angústias do mundo pela dissipação e neutralização dos desejos e opiniões. Ironicamente, os que se isentam ainda são responsáveis pelo mal que é escolhido, mas não podem compartilhar o mérito por qualquer possível resultado positivo que venha a ocorrer.
Não se crê possível mudar o status quo, então a escolha parece inútil. Mas, mesmo que a mudança externa seja realmente impossível, ao menos há algo no interior que salva-se ao escolher. Afinal, sob a lógica kantiana, a passividade da inação nada mais é do que agir por inclinação, ou seja, egoísmo, enquanto o agir por dever, base da ética de Kant, é necessariamente ativo e ancorado na intenção, mais ainda que nos resultados.
Outro arcabouço ético altamente pertinente para sintetizar todo o problema que aponto é o de Emmanuel Lévinas: o Isentão comete uma violência fundamental contra o Outro. Ao se abster e permanecer neutro diante da injustiça ou do sofrimento, ele está negando a interpelação ética da Face do Outro. A isenção é a tentativa de escapar da responsabilidade de se fazer refém da necessidade do Outro, o que Lévinas veria como a raiz da inumanidade. O engajamento, portanto, é a própria essência do ser ético, e a tentativa de disfarçar-se essa essência com a não escolha, um ato inumano de covardia.
Posso ser tolo, mal direcionado, mesquinho, raso, lunático e outras mil coisas mais, mas ao menos não covarde, eis meu ponto.
Recuso a tornar-me também um carniceiro.
– Ian
