Li Hilda chamar e clamar seu caro Ricardo, apenas para descobrir que era mais coisa que homem de fato. Desde então, tomou-me uma vontade de chamar também um outro, de endereçar ao menos um poeminha que seja a algum ente alheio a complexar e perplexar a mente dos futuros leitores com seu mistério cativante.
O problema é: que nome chamar?
Hilda chamou-o Ricardo, mas Ricardo já existe: fora anos atrás meu professor de patologia. José, como o de Drummond, também não me é possível inventar, pois já há, sendo um grande amigo meu. João, a quem um dia destinei um chamativo, também tornou-se um conhecido, e tratar com ele de novo seria quadraticamente estranho.
Dante, Vinícius, Carlos, Leo: os mestres também já me são existentes. Será mesmo necessário incomodar os mortos em seu descanso? Não é esse meu desejo, pois o que tenho a dizer não tenho a dizer para Clarice, por mais sagaz que fosse.
Cada um desses nomes traz em si algo ao qual não posso dar origem.
Será que chamar-me seria arrogante ou egotista demais? Perdido em meu devaneio, pondero opção e mais opção apenas para perceber-me incapaz de inventar o outro, de separar a miríade de memórias e impressões que me entopem de um mero nome qualquer.
É-me, afinal, impossível escrever ao outro, pois é-me impossível escrever o outro. Tudo que posso tocar é aquilo que encontra-se no limiar anoréxico entre as fronteiras do aquém e do além de mim.
Perdão, Ricardo, mas não sou capaz de dirigir-me vocativamente a ti tal qual fez Hilda.
Perdão também, Ian, por essa indecisão somada e elevada à imensidão da bagagem e âmago do ser que mal sei precisar se é seu, meu ou nosso.
-Ian
