“As grandes cidades são favoráveis à distração que chamamos de deriva. A deriva é uma técnica do andar sem rumo. Ela se mistura à influência do cenário. Todas as casas são belas. A arquitetura deve se tornar apaixonante. Nós não saberíamos considerar tipos de construção menores. O novo urbanismo é inseparável das transformações econômicas e sociais felizmente inevitáveis. É possível se pensar que as reinvidicações revolucionárias de uma época correspondem à idéia que essa época tem da felicidade. A valorização dos lazeres não é uma brincadeira. Nós insistimos que é preciso se inventar novos jogos”.
Résumé 1954, assinado por Debord e Fillon (Potlatch, n. 14, novembro 1954)
“Tentando conversar com o vento ou com a cidade? O que você imaginava que aconteceria não aconteceu, e agora você está aí parado, com os braços caídos ao lado do corpo.”
Shivers – Disco Elysium (2018)
Em 28 de julho de 1957, foi fundada a Internacional Situacionista (IS), um coletivo nascido da fusão entre o Letrismo, o movimento Cobra e o MIBI (Movimento Internacional por uma Bauhaus Imaginista). A união dessas vertentes agrupou artistas e teóricos que rejeitavam as instituições artísticas tradicionais e buscavam novas formas de intervir no cotidiano. Seu alvo principal era o “urbanismo funcionalista” moderno, personificado por Le Corbusier, que interpretavam como uma tecnologia de controle social. Para os situacionistas, esse urbanismo separava a vida em zonas rígidas de trabalho e lazer, eliminando o acaso, o encontro e a intensidade. Via-se nele a “obra-prima” do capitalismo: um dispositivo que convertia a vida social em Espetáculo, essa forma de representação mediada na qual as pessoas se tornam espectadores de sua própria alienação, impedidas de participar da construção ativa do mundo em que vivem. Debord, Jorn, Vaneigem e outros situacionistas entendiam que a modernidade produziu cidades eficientes, disciplinadas e voltadas à circulação, mas incapazes de gerar experiência. Assim, práticas como a psicogeografia, a deriva e o urbanismo unitário surgem como ferramentas de desmontagem desse urbanismo racionalista: a cidade deveria ser sentida, percorrida de modo imprevisível, vivida não como mapa, mas como campo de forças emocionais, históricas e ideológicas. A IS via o espaço urbano como um organismo vivo, pulsante, que reage aos corpos que o atravessam; e enxergava no cotidiano a última fronteira de transformação radical, onde caminhadas errantes, encontros inesperados e atmosferas afetivas poderiam restaurar uma dimensão lúdica da vida. Transformar a cidade significava, portanto, transformar o sujeito e o inverso também era verdadeiro.
Nesse sentido, Disco Elysium, RPG lançado em 2018 que tem como cenário a cidade de Revachol, recupera exatamente aquilo que Debord defendia ao afirmar que o urbanismo moderno se tornara uma ideologia: transformar a cidade exige que deixemos de ser espectadores e voltemos a habitá-la com intensidade, risco e abertura sensorial. Entretanto, Revachol não representa a cidade moderna do universo de Disco Elysium que os situacionistas iriam se opor; esta é mencionada, mas não aparece no jogo. Revachol é uma cidade decadente, marcada por revoluções fracassadas, sem qualquer perspectiva de futuro. Revachol já fora a capital de um grande império, até que o último suserano foi derrubado por revolucionários comunistas cinquenta anos antes dos acontecimentos narrados no jogo. Esses revolucionários, entretanto, foram reprimidos pela Coalizão das Nações, uma aliança político-militar que preserva a ordem do livre mercado e que governa Revachol desde então. David Harvey define que o neoliberalismo surgiu como um projeto para tentar reerguer o poder de classe, mas, assim como em Disco Elysium, este sistema parece não ter conseguido superar as suas contradições. Revachol treme, murmura, respira, lamenta e observa seus habitantes com a resignação cansada de quem já assistiu a seus próprios sonhos serem esmagados. É uma cidade derrotada, mas longe de silenciosa: suas esquinas narram revoltas perdidas; seus prédios exibem cicatrizes de balas; suas pontes materializam fraturas sociais profundas; seu litoral, uma ferida de guerra que continua doendo; todos estes espaços literalmente conversam com Harry Du Bois, o protagonista do jogo. Assim como é comum em jogos de RPG, Disco Elysium apresenta diversas habilidades nas quais o jogador pode escolher se aprofundar. Uma destas habilidades é a Shivers (calafrios), que permite que o protagonista “ouça a voz da cidade” e se funda com a rua, percebendo tragédias passadas e eventos distantes que não estão no seu campo de visão imediato. Com uma rolagem de dados alta o suficiente, Shivers distorce o tempo-espaço para misturar informações do passado com informações do futuro e para contar como o espaço foi e como o espaço virá a ser.
“Atrás deste prédio – o outro. Certa vez cheio com engenheiros e designers da Feld Electric, agora desabado e morto, a não ser por alguns ratos…Você se sente atraído, por alguma razão, ao mural desbotado novamente.”
Shivers – Disco Elysium (2018)
Charles Jencks, autor do livro The language of post-modern architecture, data a morte da Arquitetura Moderna no dia 15 de Julho de 1972, às 15h e 32min aproximadamente, quando o falho e infame conjunto Pruitt-Igoe foi demolido. Ruas feitas para carros que matam a vizinhança e matam também a comunidade, assim como o desaparecimento dos “olhos das ruas”, como relatado por Jane Jacobs, são alguns dos diversos outros atos falhos do modernismo. Isto também não significa que este tenha sido de fato o último sopro do modernismo, porém, curiosamente, muitas cidades brasileiras se aproximam mais de Revachol do que da utopia modernista: a revolução do urbanismo moderno não aconteceu, os setores urbanos continuam misturados e os problemas de mobilidade não foram resolvidos com avenidas monumentais de múltiplas faixas. Mesmo que de uma forma não necessariamente “anti-moderna”, Harry Du Bois, em sua amnésia que serve como ponto de partida narrativo, percorre Revachol de maneira inesperadamente situacionista: sem direção definida, guiado por sensações, por memórias esparsas, por impulsos que o conduzem ora a um pobre vilarejo de pescadores e ora a uma zona comercial em ruínas. Caminhar por Revachol é, como na deriva situacionista, deixar-se afetar pelas correntes, pelo vento que ora sopra diferente, pelas experiências inesperadas da cidade. Aqui, contudo, a habilidade Shivers se aproxima um pouco mais do aspecto materialista do Flâneur de Walter Benjamin do que do experimentalismo dos situacionistas, pois Shivers, assim como o burguês desinteressado de Benjamin, não interfere diretamente, mas é perspicaz para reconhecer as marcas das disputas na paisagem. O jogador consegue compreender que cada rua contém uma narrativa e cada ruína, uma ideologia cristalizada. Para entender a cidade não basta só caminhar sem destino, mas também conversar com ela.
Da mesma maneira, embora os situacionistas tenham realizado uma crítica precisa ao capitalismo (e urbanismo) moderno, cometeram um erro importante ao tomarem o boom econômico do pós-guerra francês como tendência permanente. Acreditaram que a abundância seria duradoura, uma expectativa que hoje parece excessivamente otimista. Em teoria, o trabalho diminuiria e assim, portanto, poderíamos construir cidades não com um foco funcionalista, mas sim com um foco na construção integral de um ambiente em ligação dinâmica com as experiências de comportamento. Contudo, a psicogeografia ficou no passado, o Urbanismo Unitário não chegou e as cidades não são construídas para derivar, da forma como queria Guy Debord. Por mais que a ideia de sair sem rumo à deriva das experiências urbanas pareça ser divertida, se eu sou um trabalhador em São Paulo é claro que eu não vou me locomover pela cidade utilizando um mapa de Paris: no final do dia, a classe trabalhadora tem contas para pagar e, portanto, no dia a dia precisa chegar ao local de trabalho, e não se deparar com experiências inesperadas.
Autonomia é a possibilidade de contrabalançar o poder do capital, contra-poder na vida diária, nas fábricas, nos bairros, nas casas, nas relações afetivas entre as pessoas.
Franco “Bifo” Berardi – After the future. (2009)
Uma igreja abandonada que está sendo transformada em um clube de dança. Quatro jovens trabalham duro ali, tornando-a ainda mais hard core.
Shivers – Disco Elysium (2018)
Em uma das missões de Disco Elysium, Harry se vê no dilema entre ajudar alguns adolescentes drogados a montar um clube de dança em uma igreja abandonada, um antigo ponto de referência dos dias mais gloriosos de Revachol. Dos finais que esta missão apresenta, o melhor e mais satisfatório se dá quando o sistema de som utilizado para ouvir a música “hardcore” dos jovens ajuda Harry a descobrir um mistério paranormal na igreja. O jogo deixa claro que a ressignificação daquele espaço foi o desfecho ideal não só para os jovens, mas para as outras pessoas que ainda tentavam usufruir daquele espaço. Aqui, o final bom é o da música eletrônica dando nova vida a uma igreja de uma religião que existiu há 300 anos. Em termos de Henri Lefebvre, parece uma ode ao espaço vivido de um tempo atual se sobrepondo ao espaço concebido por um poder antigo que, por mais que tenha sido o espaço vivido e observado de uma época, não parece ser o presente ou o futuro desta ilha fictícia. Portanto, como atingir a autonomia na produção do espaço em um mundo onde a heteronomia do capital parece inabalável? A resposta talvez esteja em seguir o exemplo de Harry: conversar diretamente com a cidade, compreendendo o que aquele espaço foi e o que ele é hoje, para então vislumbrar como podemos moldá-lo no futuro. Talvez devêssemos nos concentrar em ações pontuais que revitalizem espaços antigos, incutindo-lhes novas culturas, em vez de almejar grandes revoluções organizadas e simultâneas — como propunham as ações modernistas da Carta de Atenas ou as situacionistas, como a psicogeografia. Antes de tentar revolucionar o imaginário coletivo com um urbanismo radical, devemos tentar entender a nossa própria cidade e seus espaços através do tempo, tal qual a igreja de Disco Elysium. Solucionar o déficit habitacional de um bairro compreendendo as condições que permitiram tal situação e, por vezes, ressignificando lugares existentes em vez de buscar uma política complexa e abstrata, pode ser o caminho.
– Aldo
