“Meus irmãos, estais na desgraça, meus irmãos, vós a merecestes […] Desde o início de toda a história, o flagelo de Deus põe a seus pés os orgulhosos e os cegos. Meditai nisso e caí de joelhos.”
– CAMUS, Albert. A Peste (1947).
Assim pregava o Padre Paneloux enquanto a cidadezinha de Oran padecia da peste que dá nome ao romance de Camus, para a incredulidade do protagonista, Dr. Rieux, que esperava da igreja local senão ajuda a combater a infecção, ao menos um acalento para o desespero dos locais. Mas, ao contrário do que ele esperava, não encontrou nenhum dos dois. Digo “do que ele esperava” pois, diferentemente do médico, eu não já não me via nutrindo esse tipo de esperança quando li o livro pela primeira vez. E, se na época já não a nutria, hoje posso dizê-la morta por inanição.
Afinal, a religião, idealmente consolo, há muito serve como justificativa para o sofrimento. E, nesse propósito, encontrou um forte aliado nas construções capitalistas, em especial no neoliberalismo meritocrático.
O cristão-liberal é uma quimera moderna: ele reza ao “deus [que] não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas”, mas vota como caberia a um banqueiro de Wall Street. Essa união profana só é possível através de uma tradução perversa da fé que confunde a “cruz”, símbolo sagrado do cristianismo, com o “mais”, símbolo sagrado da contabilidade. A pobreza deixou de ser uma bem-aventurança e tornou-se incompetência espiritual. Atualmente, no liberalismo cristão, se o seu saldo está no vermelho, a sua alma também está.
“A própria palavra “cristianismo” é um mal-entendido — na realidade, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz.”
– NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo (1895).
A prática dos valores cristãos exige renúncia, altruísmo e uma série de outras coisas não muito convenientes ao cidadão médio. Entretanto, o dogma como crença real há muito tornou-se ultrapassado, se é que algum dia não o foi, dando espaço ao muito mais aplicável dogma como subterfúgio, i.e., a fé como justificativa, nada mais. Esquartejando-se todo o sistema de crenças e cultura que é a religião, toma-se apenas aquilo que é estritamente conveniente ou necessário para a identificação social.
Em “A Ética Protestante”, Max Weber constrói a ideia de que o capitalismo moderno nasceu no berço da reforma religiosa. Para os calvinistas da época de Weber e os neopentecostais modernos, por exemplo, a angústia da salvação foi resolvida com uma métrica simples: o sucesso. Weber detalha como o conceito luterano de Beruf (vocação) foi radicalizado pelos calvinistas, com trabalho deixando de ser apenas um meio de sobrevivência para se tornar parte de um culto ao capital em que o sucesso é o sinal da graça divina e garantia de salvação (Certitudo Salutis), enquanto a pobreza se torna, inevitavelmente, o estigma do condenado. Para o liberal-crente, ajudar o pobre não é apenas “dar o peixe”, mas sim comungar com alguém que Deus, aparentemente, já rejeitou. Não só faz-se desnecessária a caridade em detrimento do próprio, mas ativamente condena-se a mesma, focando sempre no trabalho próprio como meritocrático e engrandecedor.
Mas, o que se pode reconhecer inicialmente como uma moral meramente religiosa, ao atrelar-se ao liberalismo capitalista, transcende o âmbito da religião para integrar o habitus (BOURDIEAU, Pierre. O senso prático. 1980) que ancora toda uma mentalidade contemporânea em ascensão, não necessariamente atrelada a uma fé específica. A teologia da prosperidade, ao ter seu caráter religioso diluído, dá lugar à meritocracia como sistema “ético”.
“[Ela] Não é “rica, mas boazinha”. É boazinha porque é rica. Se eu tivesse todo esse dinheiro, eu também seria boazinha”
– JOON-HO, Bong. Parasita (2019).
O liberal acredita, ou finge acreditar, ao menos, que sua moralidade, muitas vezes sob o disfarce de esforço e trabalho árduo, o enriqueceu ou enriquecerá. O filme “Parasita”, de Bong Joon-ho, escancara bem a hipocrisia presente nessa linha de pensamento: é a riqueza que permite a performance da moralidade. É fácil ser um “cidadão modelo” e “cristão convicto” no condomínio fechado, difícil é manter a santidade nas sarjetas. O ateísmo materialista entende o que a teologia do mercado ignora: a ética é um luxo que a miséria muitas vezes não permite comprar.
Essa cegueira moral não é exclusividade da elite sul-coreana de “Parasita”. Na literatura brasileira, Roberto Drummond também aborda esse cenário e coloca justamente uma prostituta como arauta da lucidez humana e forte opositora da anti-moral liberalista e pseudo-cristã . Em “Hilda Furacão” (1991), após uma procissão de fanáticos ser enviada para “exorcizar” o mal da zona boêmia de Belo Horizonte na qual vivia a protagonista, grande benfeitora e companheira da população vulnerabilizada, ocorre um confronto entre a mesma e o beato Frei Malthus. Ao ser acusada de viver na luxúria e não saber o que seria a fome, Hilda rebate ao frei, apelidado por ela de “santo dos ricos”, com um monólogo que confronta diretamente o liberalismo religioso:
“Responda, Frei Malthus: alguma vez, você que é santo, soube como vive um operário brasileiro? Pois eu, que você diz que sou o demônio, sei da fome do povo brasileiro, a fome dos operários, dos favelados, dos subempregados, dos desempregados, e dos que nada têm e que sentem uma fome muito além do pão nosso de cada dia, Frei Malthus. Sentem uma fome de carinho, fome de esperança, meu querido Frei Malthus […]”
– DRUMMOND, Roberto. Hilda Furacão (1991).
Lendo essa passagem, eu, ateu convicto, vi meu pensamento estranhamente alinhado com os valores da infame Hilda Furacão, que representa perfeitamente o arquétipo da santa profana. Tal qual em “A Peste”, mais uma vez vemos o paralelo entre a perseguição clerical aos vulneráveis, encarnada em Malthus e Paneloux, e a real ação ética ativamente posta em prática pelas figuras profanas de Hilda, uma prostituta, e Rieux, um médico ateu.
Somos levados a buscar não no sagrado e divino, mas no profano e humano, o acalento para as mazelas dos homens.
“Para enriquecer Deus, o homem deve empobrecer-se; para que Deus seja tudo, o homem deve ser nada.”
– FEURBACH, Ludwig. A Essência do Cristianismo (1841).
Por fim, Feurbach nos explica melhor como essa situação toda se dá. Em sua obra “A Essência do Cristianismo”, ele estabelece que, para a criação de um deus altamente idealizado, o homem pega tudo aquilo que possui de nobre e projeta na divindade, emprestando aos céus a caridade, o altruísmo, o respeito, e tudo mais desse tipo, enquanto somos deixados aqui, na terra, nus e empobrecidos, não econômica, mas sim eticamente. Não há por que ajudar o próximo, homens como somos, se toda a caridade que tínhamos encarna-se em deus, que tudo sabe e tudo planeja, inclusive a desgraça, que concede a uns coitados por alguma razão incompreensível que só pode ser indicativa da própria falha do necessitado.
Pode parecer estranho ler essas palavras vindas de mim, que não poderia discordar mais de toda a doutrina religiosa e ser mais apegado a meu próprio ateísmo. E realmente é estranhíssimo, devo concordar. Sempre vi como absurdo que eu, sem fé alguma, pudesse querer comida aos famintos e sentisse piedade dos sem-lar enquanto os crentes, imersos em seu liberalismo meritocrático e hipócrita, possam tantas vezes condenar aquilo que já encontra-se condenado. Como pode ser que eu seja o altruísta ao comparar-me com aqueles cuja doutrina máxima prega abertamente esse valor? Entretanto, tudo isso não devia surpreender-me tanto assim. Até porque, o potencial ético real, movido pelo dever kantiano e seu imperativo categórico, só pode dar-se quando intencional e ativo, não amedrontado e coagido por histórias da carochinha sobre chamas eternas e demônios com tridentes a espetar sua bunda pela eternidade.
Faz-se necessário cada vez mais que tomemos de volta tudo aquilo que emprestamos ao deus-cadáver de Nietzsche.
Deixar de lado a pobreza como instituição divina, o humano como insignificante, o niilismo diante do infinitamente superior e perfeito em prol daquilo que realmente compõe nossa humanidade: nossa capacidade de colaborar, de entender, de amar, de respeitar. O ser humano como forte, digno e capaz.
Meus irmãos, estais na desgraça, meus irmãos, vós não a merecestes […] Desde o início de toda a história, o flagelo de deus põe a seus pés os que têm menos, os desfavorecidos, os azarados, nós mesmos. Flagelemos então deus, e tornemo-nos abundantes com os espólios. Meditai nisso e dai as mãos.
– Ian
