Candelabro: Esgotamento e a Diáspora de Windmill à América Latina

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O autor, crítico musical e blogueiro Simon Reynolds cunhou o termo post-rock (pós-rock) em uma matéria dos anos 90 que escreveu para a The Wire intitulada “Shaking the Rock Narcotic”. Reynolds, tomando como um dos pontos de análise o álbum Hex da banda Bark Psychosis, descreve o post-rock como um gênero de rock experimental, surgido nos anos 90, que foca em criar paisagens sonoras texturizadas e atmosféricas. O estilo prioriza a instrumentação e a experimentação sonora sobre as estruturas tradicionais de canção, com fortes influências de jazz, música ambiente e krautrock. 

Já no fim da década de 2010 e início de 2020, surgia em Londres (especificamente em Brixton) a cena de Windmill, batizada assim em homenagem ao pub The Windmill, onde as importantes bandas do gênero se encontravam. A cena de Windmill caracteriza-se por tomar influências do post-rock e uni-las a uma certa virtuosidade remanescente do art-rock ou rock progressivo, usando às vezes vocais falados característicos do post-punk. Independentemente de quão possível é ou não especificar este subgênero ao máximo, este novo e diverso som conta com bandas como Maruja, Black Midi, Squid, Ugly UK ou até mesmo Geese (provavelmente a única que conseguiu chegar ao mainstream de fato, talvez por não ser da cena em si, mas sim uma banda americana). Contudo, o ponto zero para a virada e consolidação da cena de Windmill como um todo pode e deve ser atribuído a um nome: Black Country, New Road (comumente abreviado como BC,NR). Não somente em seu disco de estreia, For the First Time (2021), mas principalmente no mais famoso álbum subsequente, Ants from Up There (2022). Este trabalho é, com certeza, o principal responsável por moldar o gênero: vocais falados com letras cotidianas acompanhados por uma instrumentação pesada, que ora tende para uma melancolia atmosférica do post-rock, ora para uma dinâmica virtuosa que se ancora em rápidos arpejos de saxofone.

Em 2022, Simon Reynolds, em um artigo denominado “Speak-Sing Me a Song”, argumenta que bandas como BC,NR utilizam o vocal falado como um modo de cantar que confronta o “cenário de merda” do mundo cotidiano enquanto encontramos um riso amargo na situação. Reynolds argumenta que o que importa não é a textura voluptuosa da voz, mas sim as histórias que são contadas. Há um fundo de verdade nisto, mas aqui a melodia e a harmonia encontram-se aos montes e com enorme grau de importância, não nos vocais e sim na instrumentação à la progressivo. Porém, ao analisar o último disco da banda, algo parece faltar. Isto nos traz a 2025, ano em que o Black Country, New Road lança Forever Howlong — primeiro disco sem contar com o frontman e vocalista Isaac Wood, que deixou a banda em prol de sua saúde mental. A qualidade instrumental continua inquestionável, mas é nesse momento que, assim como com Geese e Cameron Winter, percebe-se que a BC,NR só chegava em seu potencial máximo com a voz voluptuosa do ex-integrante. Sem a textura grave da voz de Isaac, a banda parece nunca conseguir atingir a dinâmica presente nos álbuns anteriores e não assume o contraste que existia entre o virtuosismo do progressivo e os gritos de post-rock.

Mesmo assim, em 2025, a cena de Windmill continuava a crescer na Inglaterra, evidenciada pelo mais novo disco do Maruja e também a colaboração da banda com o rapper Quadeca. O estilo cresceu tanto que chegou na América Latina. No mesmo ano, a banda chilena Candelabro lançou seu segundo disco: Deseo, Carne y Voluntad. Abandonando um pouco dos sintetizadores do seu primeiro álbum, este novo trabalho mostra claramente a influência de Black Country, New Road funcionando em 110%. Sempre me perguntei quando este gênero realmente se expandiria e chegaria a outros países. E, agora que chegou, pareço decepcionado. A influência de Ants from Up There foi tão grande no gênero que Candelabro lançou um disco bom, que se tivesse saído cinco anos atrás seria revolucionário, mas hoje soa como um grupo latino tentando mimetizar ao máximo o som de BC,NR. Os breves momentos de um instrumental latinizado e a grata surpresa com as letras, que fazem menção a uma estética católica claramente latina, não são suficientes para contrastar a banda em seus momentos repetitivos de arpejos de saxofone.

Os jovens britânicos de Windmill fazem parte de uma das primeiras gerações que cresceu com acesso à internet; isto fica claro em entrevistas de Geordie Greep quando ele cita referências musicais de todos os cantos do globo. A cena Windmill é, talvez, a primeira cena de rock a ser canonizada em tempo real por algoritmos e comunidades de internet antes da imprensa tradicional (NME, Rolling Stone). Isso explica a velocidade da globalização do som. Isto não era possível em gerações anteriores, já que não só o acesso à música (física) em si era mais difícil, mas porque conhecer artistas de outros países dependia exclusivamente das decisões das gravadoras e publicadoras: quais as chances de se deparar com um LP de Jazz Fusion japonês morando no Brasil durante a década de 70? É quase certo afirmar, então, que os integrantes da cena de Windmill faziam parte de uma cena que acontecia no espaço real, mas também no espaço virtual. O “hardcore continuum” da cena de Windmill não pode ser tão facilmente definido — isto é, os elementos comuns que estão sempre presentes e que funcionam como um fluxo contínuo e interconectado entre as bandas que, por mais diferentes que soem, ainda se aproximam em um horizonte sonoro (Maruja e Ugly UK, por exemplo). Estes elementos comuns não podem, ou pelo menos não poderiam, ser resumidos a trechos com vocais falados ou um saxofone arpejando numa rápida e virtuosa velocidade, até porque se não em nada inovariam além do clássico de post-rock Spiderland (1991) de Slint, ou Red (1974) de King Crimson. Por que então artistas que cresceram com maior acesso à música do que qualquer geração anterior produzem, no final do dia, um gênero que consegue apresentar composições tão diversas mas que se parecem tanto entre si?

A resposta se divide exatamente entre estes dois espaços: o real e o virtual. No âmbito do real devemos mencionar Dan Carey, o produtor por trás de Schlagenheim (Black Midi), Dogrel (Fontaines D.C.) e Bright Green Field (Squid), que é também fundador da gravadora Speedy Wunderground, responsável por lançar o primeiro single de BC,NR. A existência de uma figura como Carey ajuda a explicar por que a cena soa tão coesa e por que é tão fácil “copiar” a estética. Existe uma “fórmula de produção” (gravação ao vivo, pouca compressão, ênfase na dinâmica de sala). Esta homogeneidade que permite ao Candelabro mimetizar o som londrino deve-se, em parte, à cartilha de produção estabelecida por Dan Carey, o arquiteto sônico que moldou a ‘sala’ onde todas essas bandas parecem tocar. Contudo, traçar o “continuum” no ambiente virtual parece ser mais complicado. Se esta cena foi praticamente a primeira cena rock de sucesso mundial estabelecida simultaneamente no cenário on-line, e dado que seus integrantes, pela idade que têm, também cresceram se influenciando musicalmente na internet, é quase possível traçar um padrão comum de consumo destas pessoas. Apesar de terem acesso a quase toda a arte já produzida, estes jovens com certeza assistiram aos mesmos vídeos virais e frequentavam os mesmos sites. Spiderland de Slint ou Red de King Crimson — álbuns que certamente influenciaram o gênero como um todo — hoje, curiosamente, ocupam as posições 33 e 24 no ranking de Top Albums de Todos os Tempos no Rate Your Music, um dos maiores e mais famosos fóruns de música. O termo “RYMcore” é pejorativo, mas descreve perfeitamente a homogeneização do gosto musical de um grupo de pessoas que tenta ter um gosto musical diferente. Deseo, Carne y Voluntad não é apenas um disco, é um artefato projetado para agradar o nicho do ‘RYMcore’, uma validação digital que hoje pode valer mais do que a crítica impressa.

Este som chegou na América Latina, mas infelizmente de uma forma que soa pastiche. Aqui começa a linha tênue entre Simulacro e Simulação, proposta por Baudrillard (1981): o quanto o novo disco da banda Candelabro não se propõe a ser uma cópia daquilo que não existe mais de forma equivalente na música (Isaac Wood está afastado e o Black Midi acabou)? Ou seria a imitação de um processo ainda existente, a própria cena de Windmill? Fica o questionamento se o “Lento Cancelamento do Futuro”, sobre o qual Mark Fisher alertava, está em processo de mudança. Se antes o processo acelerado da cultura demorava anos para reciclar uma estética — como a londrina Amy Winehouse emulando o jazz americano dos anos 50, ainda presa numa lógica próxima da crítica hegemônica —, agora isso se traduz globalmente em um cenário onde uma banda chilena leva poucos anos para não conseguir imaginar uma nova adição a um gênero que também é muito novo e, portanto, deveria ainda ter espaço para inovação. Deseo, Carne y Voluntad é sintoma da aceleração da globalização estética, agora representada e impulsionada por um nicho de um subgênero musical difundido em fóruns ou suscetível a viralizações no TikTok.

Geordie Greep tentou escapar do “hardcore continuum” da cena de Windmill, e fez exatamente isso no álbum The New Sound de 2024, quando veio para o Brasil para tentar gravar e fugir das origens inglesas já sedimentadas em sua composição anterior enquanto membro do Black Midi. No Brasil, contudo, a influência de BC,NR e o movimento de revival do post-rock não passaram totalmente despercebidos também. A banda mineira Lupe de Lupe lançou também em 2025 o álbum Amor; talvez o melhor disco da banda, seja o mais post-rock deles. Uma banda que sempre foi na contramão do virtuosismo agora explora mais a ambiência com o uso de instrumentos de metais, por exemplo. Outro exemplo é a mais nova banda do selo Balaclava Records, Terraplana, que lançou seu primeiro disco em 2025 misturando shoegaze com elementos de post-rock. É perceptível que o “hardcore continuum” da cena de Windmill tenta escapar para outros caminhos e subgêneros do rock, chegando a influenciar a nova cena underground ou indie ao redor mundo.

Por outro lado, o virtuosismo e preciosismo musical brasileiro não parecem estar ligados ao rock progressivo assim como os ingleses, mas sim à nostalgia da época de ouro da MPB. A mudança sonora e estilística gradual do compositor Tim Bernardes demonstra isso. À medida que Tim se aproxima de uma estética Caetano ou Chico, buscando letras profundas e arranjos mais belos, mais ele se afasta do rock cru e irônico do primeiro álbum de O Terno. Faz sentido que o legado do virtuosismo musical no Brasil seja mantido por artistas da chamada “new wave of brazil”, termo utilizado por Zé Ibarra, outro nome famoso da música brasileira contemporânea, em uma palestra durante o evento Sílabas e Sons em Ouro Preto. Aqui, portanto, parece existir uma oportunidade clara para a próxima banda brasileira que queira tentar se destacar em 2026: emular o novo revival de progressivo e post-rock, não cometendo os erros sonoros e estéticos do Candelabro, mas sim tentar criar algo que dialogue verdadeiramente com a antropofagia brasileira que o momento pede. Ao invés de digerir a influência britânica e vomitá-la misturada com a tradição chilena (como a Tropicália fez com o Rock e a música brasileira), Candelabro está apenas “vestindo a roupa” do Windmill. O verdadeiro “Post-Rock Latino” deveria soar como uma desconstrução do rock progressivo argentino (Spinetta e Charly Garcia) ou do Clube da Esquina, filtrado pela angústia moderna, e não como uma banda “RYMcore” de Brixton traduzida para o espanhol. De qualquer forma, aqui parecem estar os primeiros sinais de esgotamento do gênero, resta saber se este irá sobreviver até o fim da década.

– Aldo