“É simples desse jeito. Alguns podem tingir os cabelos de verde e usar o casaco da avó o quanto quiserem. O capital tem a habilidade de encerrar todas críticas em si próprio. Mesmo aqueles que fariam crítica ao capital, em vez disso, acabam fortalecendo-o.”
– Diálogo com Joyce Messier. Disco Elysium (2019).
Dentre os inúmeros temas abordados no jogo Disco Elysium (2019), o funcionamento e inevitabilidade do sistema capitalista podem ser considerados parte central do fenômeno cultural que foi a obra estoniana. Mas, ao criticar o próprio sistema no qual o jogo se encontra, somos levados a questionar a própria ironia de uma obra mercantil criticando o próprio mercantilismo. E essa discussão expande-se para uma parte considerável das formas culturais atuais.
“Nada corre melhor na MTV do que um protesto contra a MTV. […] O capital aprendeu a incorporar a pulsão de morte, a rebelião e o descontentamento como formas de entretenimento e marketing.”
– FISHER, Mark. Realismo Capitalista (2009).
A ideologia capitalista não exige que você acredite nela, apenas que você participe dela. Dessa forma, as mídias ancoradas na crítica ao próprio sistema, cada vez mais popularizadas atualmente, tornam-se nada mais que o alimento do próprio sistema. É o caso da série norte-americana “The Boys” (2019), parte do catálogo do serviço de streaming Amazon Prime, que, através de violência explícita, sátira e inversão das figuras dos super-heróis, aparenta inicialmente ser uma crítica cortante ao capitalismo. Sob esse prisma, não apenas o “Realismo Capitalista” de Fisher, mas também a “Dialética do Esclarecimento” (1947), do filósofo e sociólogo alemão Theodor Adorno, trazem conceitos relevantes para esse tema.
“O que é novo na fase da cultura de massa […] é a exclusão do novo. A máquina gira em torno do próprio eixo. […] Tudo o que aparece é submetido a um selo tão profundo que, no fim, nada transforma-se, porque tudo foi feito sob medida, desde o início.”
– ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. A Dialética do Esclarecimento (1947).
“The Boys” é o clássico exemplo da ação da Indústria Cultural, como proposto por Adorno, diferenciando-se da Cultura Popular de forma bem simples: enquanto manifestações populares, como o folclore, são criadas pelas massas, os produtos da Indústria Cultural são criados para as massas. Não pode haver uma crítica verdadeiramente “nova” ou revolucionária dentro da Amazon Prime porque tudo o que entra lá já foi feito sob medida (formatado, roteirizado, aprovado por executivos) para não quebrar a máquina, apenas fazê-la girar.
Tendo isso em vista, para ajudar na palatabilidade desse conteúdo entra a ação do Sempre-igual (do alemão, “das Immergleiche“): o disfarce dos produtos padronizados da Indústria Cultural para que se mantenham aparentemente novos e únicos aos consumidores. A violência explícita, rebeldia e crítica de “The Boys” nada mais são que uma parca camada de maquiagem a cobrir de leve a face do já muito saturado e mainstream gênero de filmes de super-heróis, mantendo-se sempre muitos dos mesmos atributos tão criticados nos filmes da Marvel e afins: o entretenimento excessivo, uso constante de cliffhangers e foco em merchandising, com a série da Amazon Prime tendo se tornado, inclusive, uma das peças chave das campanhas publicitárias do seu serviço de streaming.
“Divertir-se significa estar de acordo. […] Divertir-se significa sempre: não ter de pensar nisso, esquecer o sofrimento, mesmo onde ele é mostrado. A impotência é a base do divertimento.”
– ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. A Dialética do Esclarecimento (1947).
A promessa da Indústria Cultural é o escapismo: ao consumirmos a suposta crítica como entretenimento e diversão apenas, nos reconciliamos com o status quo ao invés de prosseguirmos criticando. Com isso, voltamos a Fisher e ao conceito de interpassividade, cunhado por Robert Pfaller, mas aplicado principalmente no “Realismo Capitalista”, que descreve o ato de delegar ou terceirizar um sentimento, uma crença ou uma ação para um objeto ou um outro ente ou produto cultural. Filmes e séries ancorados na crítica ao capitalismo realizam o ato de ser anti-capitalista por nós: a obra faz o trabalho sujo, aliviando o fardo do espectador, que pode focar-se apenas em se entreter e divertir.
“O capital é trabalho morto, que, como um vampiro, vive apenas da sucção de trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga.”
– MARX, Karl. O Capital, Livro I (1867).
Mesmo aquilo de mais oposto ao sistema capitalista não escapa desse processo de subversão e consumo, pois o próprio capitalismo é um movimento sem fim de autovalorização ou moral. Se a crítica gera lucro, o capital precisa absorvê-la. Dessa forma, vemos o icônico “Manifesto Comunista” de Marx e Engels, base calcária da maioria do pensamento anti-capitalista, vendido na própria Amazon, juntamente de camisas com o rosto de Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido como Che Guevara, famoso revolucionário comunista e guerrilheiro argentino atualmente transmutado em ícone da cultura pop.
Quando vemos o rosto de Che Guevara como uma estampa de camisa vendida em um shopping ou loja online, é palpável o conceito do fetichismo de Marx. A história real, repleta de conflito, ideologia e sangue, desaparece, restando apenas o objeto “camiseta” que carrega uma aura mágica de rebeldia. Não se compra a revolução, mas sim a mercadoria que fetichiza a revolução.
Dessa forma, fica claro por que a Amazon, suprassumo do corporativismo capitalista, produz uma série que critica corporações. Não é hipocrisia moral, tendo em vista que a moral é alienígena ao capitalismo, mas sim um imperativo econômico. O capital age como um vampiro: ele precisa sugar o “trabalho vivo”, presente na criatividade, na arte e na crítica cultural, para se manter vivo. Se a crítica é o que está pulsando na cultura contemporânea, é isso que ele vai sugar.
“No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso.”
– DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo (1967).
Se, sob o sistema capitalista e a Indústria Cultural, a “verdade” da crítica é apenas um momento dentro da “falsidade” do produto, resta a dúvida de como verdadeiramente criticar. Se toda crítica acaba por ser consumida e digerida pelo próprio objeto criticado, o ato de criticar-se em si pode parecer vazio. Entretanto, resignar-se a não criticar talvez seja uma contribuição ao capital ainda mais generosa que a interpassividade. A questão não é se devemos ou não criticar o sistema, e sim como fazê-lo. Questão essa, no caso, que sou incapaz de responder completamente, imerso no paradigma da impossibilidade de imaginar-se claramente um mundo sem as construções capitalistas, como articulado no magnum opus de Fisher.
Posso, entretanto, tentar propor um modo para tensionarmos levemente as grades e respirarmos através das brechas, evitando ao menos o completo sufocamento.
“Mais do que filósofos, leitores, cinéfilos e consumidores, temos que tornarmo-nos guerrilheiros”. – Dias, Ian. Guerrilha (2025).
E, para isso, o Détournement, de Guy Debord, e as Linhas de Fuga, de Gilles Deleuze, são conceitos essenciais.
Détournement (do francês, desvio) consiste na subversão cultural e política que advém de reutilizar ou desviar um elemento pré-existente de uma produção cultural para lhe dar um novo sentido contestatório, em oposição completa ou parcial ao seu significado original. Se o capital consome a crítica e regurgita a Indústria Cultural, devemos consumir a Indústria Cultural e regurgitar mais uma vez a crítica. É necessário aceitar toda obra de oposição como efêmera, e promover a continuidade como forma de sobrevivência. Juntamente disso, necessitamos das Linhas de Fuga, movimento pelo qual um agenciamento, seja ele um indivíduo, um grupo ou um sistema, se desterritorializa, ou seja, rompe com suas formas, estruturas e códigos fixos e estabelecidos. De forma ativa, deve-se buscar a produção de um devir-outro, de um novo modo de vida, de pensamento ou de relação que ainda não existe ou que é considerado impossível pelo sistema vigente. O próprio Desejo, em sua potência de inventar mundos, é capaz de criar uma trilha nova na subjetividade.
“As linhas de fuga não consistem em fugir do mundo, mas em fazer o mundo fugir […] em traçar uma linha que não é nem imaginária nem simbólica, mas real.”
– Deleuze, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos (1977).
Faz-se necessário contrapor a ideia de “escapismo”, vendido pela indústria cultural, com a ideia de “fuga ativa” como uma ação política real. Não uma “fuga imaginária”, como “The Boys”, em que os heróis lutam com os vilões corporativistas satirizados e você imagina a revolução, sente a catarse, mas o mundo continua igual. Tampouco uma “fuga simbólica”, mudando apenas o discurso e vestindo uma camisa do Che Guevara. Mas sim a “fuga real”, na qual tentamos traçar um caminho onde as regras do capitalismo deixam de funcionar. Não é sonhar com outro mundo, é começar a viver de outro jeito agora, forçando o sistema a quebrar naquele ponto.
É claro que não é praticável o rompimento constante e contínuo com o capitalismo, em especial quando mesmo a subversão que fazemos da subversão capitalista de uma crítica original tem vida curta. Por isso precisamos da guerrilha. Do nomadismo. Podemos engajar e sermos politizados com a sátira e crítica da série, usando de sua imagem para subversão e engajamento legítimo, mas sempre prontos para uma retirada estratégica. As bolhas culturais presentes nas redes sociais atuais são mestras em utilizar a imagem de uma marca para atacá-la, ridicularizando o capital frente às massas digitais. Não precisamos não consumir a mídia ou não nos divertir, mas é possível, enquanto fazemos isso, engajar ativamente com as ideias críticas, refletindo-as, internalizando-as, contestando-as. Além disso, podemos também não ir aos parques de diversão que eventualmente surgirão.
Se o capitalismo subverte nossa crítica, que subvertamos a própria subversão, mesmo que efemeramente. Quando a própria Amazon começar a postar o mesmo tipo de meme que usávamos para criticá-la, talvez seja hora de partir: para a próxima mídia, para a próxima tentativa, o próximo veículo, o próximo submundo:
Para a próxima guerrilha.
E, por fim, reconheço que mesmo essa guerrilha pode ser cooptada. Longe de vencer o capitalismo, ela é apenas mais uma tentativa vã de manter-se a dignidade humana, Sísifo que sou.
– Ian
