A arquitetura, o desejo e os rostos de Pathologic 2

“Any choice is right, so long as it’s willed. That’s the truth.” 

“Qualquer escolha é certa, desde que seja desejada. Esta é a verdade”.

(Arthemy Burakh — Pathologic 2)

Pathologic 2 (2019) é um jogo russo de sobrevivência com foco na narrativa e em suas milhares de linhas de diálogos filosóficos, ambientado em uma cidade fictícia sem nome, cortada pelo rio Gorkhon. Cercado por uma estepe primitiva e suas tradições antigas e místicas, normalmente chamado somente de “A Cidade”, este espaço se apresenta como uma pequena comunidade onde as convenções sociais e a própria realidade estão em constante conflito. O jogador assume o papel de Artemy Burakh, um cirurgião tradicional especialista nas linhas e cortes — conhecido localmente como Menkhu — que retorna à sua terra natal apenas para encontrá-la assolada por uma epidemia letal conhecida como a “Praga da Areia”. A mecânica do jogo impõe uma gestão brutal de tempo e recursos, onde o jogador deve tentar salvar os habitantes de uma doença que não é meramente biológica, mas uma entidade consciente que devora a cidade através de seus distritos urbanos: a cada novo dia um novo distrito é infectado, forçando uma luta desesperada para preservar a vida em um ecossistema à beira do colapso total.

No texto Modernistas, arquitetura e patrimônio (1995), o autor Lauro Cavalcanti demonstra como as ideias de Le Corbusier alinharam-se ao discurso do Estado Novo, que buscava construir um “Homem Novo”. Arquitetos modernistas, como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, atuaram alinhados a JK ativamente no Ministério da Educação e Saúde (MES) e, posteriormente, no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan). O “Homem Novo”, na visão dos modernistas, seria um ser moldado pela arquitetura e pelo progresso, muitas vezes às custas do apagamento dos passados que eram julgados não serem dignos de rememoração. A criação do Homem Novo, contudo, mostrou-se um double-bind; um comando duplo e antagônico. O ideal modernista seria criar uma identidade totalmente nova e brasileira, desconsiderando a arquitetura de “menor importância” (ecletismo e neoclássico) para beber da fonte pura da arquitetura colonial e barroca, pois esta sim era brasileira de verdade e representava a identidade nacional. Como criar algo realmente revolucionário e novo, mas atendo-se a uma parte específica do passado? A arquitetura colonial é realmente brasileira ou, como o nome já diz, colonial? Não seria a arquitetura moderna como um todo europeia? Le Corbusier, o pai da arquitetura moderna, era um francês; e Gregori Warchavchik, o arquiteto da primeira casa moderna do Brasil, um ucraniano naturalizado brasileiro. Seja como for, o texto de Cavalcanti destaca como esse grupo venceu correntes rivais, conseguindo a façanha de serem, ao mesmo tempo, os revolucionários que edificavam o futuro (como o prédio do MES) e os guardiões que selecionavam o passado (através do Sphan). Mas o que então era realmente novo e revolucionário nesta arquitetura? Seria realmente possível produzir uma arquitetura livre de todas as territorialidades e que realmente representasse um corte?

Em Pathologic 2, a materialização máxima dessa ambição é o Poliedro, uma estrutura arquitetônica que desafia qualquer explicação lógica ou lei da física conhecida. Erguendo-se sobre a cidade como uma “oitava maravilha do mundo”, esta torre de geometria inconcebível parece flutuar, conectada ao solo apenas por uma haste fina que perfura a terra como uma agulha. O Poliedro permanece inexplicavelmente de pé, servindo de refúgio isolado para as crianças durante o surto, sendo um monumento visual que representa a vitória do desejo humano sobre o material e o imaterial, uma construção que se recusa a fazer sentido. Por trás de tal obra, destacam-se figuras que rejeitam a ordem natural das coisas em nome de uma visão grandiosa de futuro: a família Kain, uma das três importantes famílias que comandam a cidade. Os Kains atuam como a elite intelectual e política alinhados com a ideia de transcender a mortalidade humana e as limitações da carne. Ao lado deles estão os irmãos Stamatin, um arquiteto e um engenheiro, ambos visionários responsáveis por materializar essas utopias e que, depois de realizar o impossível, encontram-se em um estado permanente de embriaguez ou depressão. Juntos e alinhados de Danil Dankovsky — o médico forasteiro que está na cidade, esses grupos representam os vetores do “progresso” e da alta cultura, impondo uma modernidade forçada e sonhadora sobre uma terra que parece rejeitar tais intervenções. Os Kains, Stamatins e Dankovsky não se interessam apenas em curar a cidade quando o surto começa; eles almejam, de fato, superar a condição humana (a carne, a morte). O Poliedro é a arquitetura desse “Homem Novo”. Ele não toca o chão (a terra contaminada, a tradição, a estepe). Ele é uma tentativa de criar um espaço livre da história.

Em 2024, a Carta de Veneza — um dos documentos mais importantes acerca de patrimônio — completou 60 anos, e Ouro Preto sediou a conferência do ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos e Sítios), onde a keynote speaker Laurajane Smith definiu o “Authorized Heritage Discourse” (AHD) como a tendência ocidental de privilegiar a monumentalidade física, esteticamente agradável e grandiosa (o que a elite define como cultura), em detrimento das práticas culturais vivas, intangíveis ou “feias” das classes subalternas. O Poliedro é o patrimônio autorizado (AHD), assim como os “50 anos em 5” e sua materialização, Brasília — visualmente grandiosa e imposta pela elite. Em uma aproximação grotesca, algo imageticamente mais semelhante às tribos remotas aborígenes australianas que Smith estuda, seria o povo da Estepe e as tradições que representam o patrimônio não autorizado, visceral, feito de sangue, ervas e terra em Pathologic. 

Este outro lado desta moeda é representado pelos Kin, povo indígena ligado às tradições locais e místicas com sua língua própria, por vezes incorporada ao dialeto comum e, que posteriormente começa a enxergar a praga como uma consequência natural, inevitável e, até de certa forma, desejável. Grande parte desta gente trabalha sob condições precárias no Termiteiro ou no Abatedouro — locais responsáveis por processar as carnes da cidade. Os Kin, contudo, não se importam com as condições de trabalho presentes nestes prédios colossais, industriais e brutalistas de concreto, pois, segundo a tradição do povo, eles só sabem e devem viver sob uma liderança pesada e um comando duro e rigoroso, tal qual animais. Vlad Olgimsky — o dono do Termiteiro e líder da família Olgimsky, uma das três grandes da cidade — oferece “proteção” e trabalho aos Kin, mas também cumpre este papel de chefe rígido que através pode poder impões tais condições no povo da estepe. Outra importante crença dos Kin consiste no tabu de fazer buracos ou cavar a terra, pois isso machuca diretamente a mãe Boddho. Portanto, é lógico que os Kin são veementemente contra a existência do Poliedro, que perfura o chão para se sustentar. Este é o “devir-Kin”. Um devir místico que flerta com os microfascismos que estão nas relações mundanas, aqui sob o desejo de mandar e ser mandado. Quanto mais os Kains tentam elevar a humanidade através do Poliedro (o “Homem Novo” de Cavalcanti, o AHD de Smith), mais eles reprimem a natureza biológica e a tradição da estepe, que por sua vez vê uma linha de fuga na praga. O jogador, no papel de Artemy Burakh, vê-se diante deste conflito bilateral o tempo inteiro: o quanto esse desejo pelo progresso sem fim aparente é prejudicial, e o quanto a tradição do povo da estepe é retrógrada e invasiva, colocando em risco a maior parte da população?

“Existem já nas sociedades primitivas tantos centros de poder quanto nas sociedades com Estado; ou, se preferimos, existem ainda nas sociedades com Estado tantos centros de poder quanto nas primitivas.” (DELEUZE; GUATTARI, Mil Platôs)

O comando dos Kains e dos Olgimsky tenta impor um “Rosto” sobre a cidade. Para Deleuze e Guattari, o “Rosto” não é algo natural, mas uma política. É um sistema de “Muro Branco / Buraco Negro”. O Muro Branco é a significância (o significado imposto) e o Buraco Negro é a subjetivação (a consciência capturada). O Rosto organiza, hierarquiza e exclui o que é “estranho”. O Poliedro pode ser lido como a tentativa máxima de rostificação dos Kains. Ele organiza ao máximo o que seria este ideal de progresso, de utopia, de imortalidade, de “Homem Novo” ou AHD que conflita com a estepe. Os Kin, por outro lado, são rostificados pelo trabalho precário nos complexos industriais e representam uma força estática, num formato arbóreo que valoriza a tradição ao máximo; uma organização territorializante que enxerga o surto como uma força desterritorializante da natureza. A Praga faz o oposto: ela destrói o rosto. Ela transforma o indivíduo (com nome, cargo e status social) em mera carne, em matéria meramente finita. A praga despersonifica ao máximo a pessoa infectada, desde a vestimenta que cobre toda a personagem quanto à mera rolagem de dados com esta vida em risco. 

“A arquitetura situa seus conjuntos, casas, vilarejos ou cidades, monumentos ou fábricas, que funcionam como rostos, em uma paisagem que ela transforma.” (DELEUZE; GUATTARI, Mil Platôs)

No fim, era o Poliedro que, ao se estacar tal qual uma agulha terra adentro, machucou a mãe Boddho e liberou a Praga da Areia. A busca deste ideal utópico de progresso simbolizado pelo Poliedro permitiu a potência máxima das tradições rígidas da estepe, simbolizadas nas incontáveis mortes deste povo preso no Termiteiro durante o surto, com certa conivência da família Olgimsky. A reterritorialização deste mundo em harmonia com a praga era um ideal tão forte que os Kin estavam dispostos a ver inúmeros do seu próprio povo morrer. A praga agora é vista pelo povo da estepe como algo mais que naturalizado; é algo natural. O destino da cidade é permitir a existência do poliedro para a proliferação da praga, um mundo reinado pela mãe Boddho. Este desejo do povo da estepe acerca da dominância da Praga da Areia começa primeiro a nível molecular, antes de se tornar molar, quando membros do clã tentam influenciar Arthemy na decisão (política) de salvar ou não a cidade de seu “destino”. 

Pathologic 2, em sua história trágica e fantasiosa, representa muito bem a realidade do paradoxo dos monumentos: nada se ergue sem levantar a sua própria sombra. O jogo utiliza a arquitetura não só para representar o imaginário de uma pequena cidade, mas para tensionar ao máximo a polaridade entre tradição e progresso; territorialização e desterritorialização; árvores e rizomas; linhas de fuga e cortes. Esta rostificação das pessoas acontece através da arquitetura que rostifica os extremos, tudo isso enquanto o jogador tenta encontrar o meio termo, um equilíbrio inalcançável. Estes planos puros de desejo, caracterizados como Corpo Sem Órgãos (CsO) por Deleuze e Guattari, não podem ser construídos rápido demais ou de forma descautelosa, pois tendem a um CsO vazio, como o fascismo ou a morte. O sistema árvore, representado pelos Kin, buscava uma territorialização tão forte em nome da fé e do misticismo que previa os sacrifícios de inúmeras vidas; enquanto o sistema rizoma, representado pelos Kains e com o Poliedro sendo uma linha de fuga desterritorializante agressiva, seguia sem rumo, não muito diferente do aceleracionismo tecnocentrista de Nick Land.  Artemy Burakh, nesta busca inalcançável pelo caminho do meio, é tão rostificado quanto o jogador que toma suas decisões, escapando dos planos puros do desejo materializados pelo Poliedro, Termiteiro, Abatedouro ou pelas Estepes. Artemy não vai salvar todas as pessoas; estas vão perder seus rostos e morrer. Arthemy também não vai criar o “Homem Novo”, nem mesmo os Kains, Stamatin, Dankovsky ou Kubistchek. Então não — nem toda escolha é certa desde que seja desejada. Para salvar a cidade, é preciso primeiro descobrir que o objetivo é encontrar o equilíbrio, para que assim o desejo flua em um CsO onde o plano de desejo puro seja, de alguma forma, organizado em um “organismo” funcional. Para salvar a cidade é preciso linhas de cortes que sobreponham as linhas de fugas dicotômicas e extremas. Para salvar a cidade é preciso destruir o Poliedro.

-Aldo