bugonia e o perigo do capital alienígena

Não é surpresa que os principais expoentes da corrida ao Oscar 2026 estejam imersos em tramas políticas e críticas sociais contundentes. O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, disseca um recorte específico da história brasileira para demonstrar como os traumas da ditadura militar ecoam na produção do espaço e da sociedade contemporânea através da memória. Já Sinners (2025), de Ryan Coogler, utiliza o horror e o blues como alegorias da trajetória do racismo estrutural nos EUA. Por sua vez, One Battle After Another (2025), de Paul Thomas Anderson, foca na polarização política aguda: transita entre a banalização da violência pela direita enquanto ironiza certa parte da esquerda acadêmica e marxismo de apartamento derrotista, explorando também o desejo sexual nas lutas armadas (evocando uma espécie de “Cronenberg revolucionário”), o que lhe confere um caráter ambíguo, por vezes “em cima do muro”. Nesse cenário, Bugonia (2025) surge como a obra mais sintomática, abordando temas viscerais do imaginário estadunidense: a conspiração e a “pós-verdade”.

A trama acompanha dois jovens que sequestram Michelle (Emma Stone), a CEO de um conglomerado farmacêutico, sob a convicção de que ela é uma alienígena de Andrômeda. O filme apresenta os primos Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis) como figuras paranoicas do interior profundo dos EUA, sugerindo de forma não tão sutil que estes apresentam condições neurodesenvolvimentais. Portanto, além da dimensão política que é cada vez mais recorrente na “Academia, Bugonia tenta avançar na relação da psiquê humana com as grandes conspirações, quase que implorando por uma leitura esquizoanalítica — a interseção entre a psicanálise e o marxismo proposta por Deleuze e Guattari em O Anti-Édipo (1972).

O filme deixa claro que Teddy permanece prisioneiro do triângulo edipiano (eu-papai-mamãe), com traumas familiares impulsionando seu desenvolvimento e a motivação por trás do rapto. Contudo, a dimensão do trabalho parece pouco explorada durante suas duas horas de duração. Embora Teddy ocupe um (sub)emprego embalando caixas no próprio conglomerado do qual sequestra a CEO, suas condições precárias não aparecem aqui como motor de seu colapso mental. Teddy possui consciência de sua posição na base da hierarquia das relações trabalhistas, mas sua angústia não é atribuída à lógica do capital, e sim a um modus operandi de dominação intergaláctica. O que até poderia ser um instrumento interessante de roteiro cai por terra quando Teddy e Don, que inicialmente parecem loucos conspiracionistas, têm a confirmação de suas suspeitas. Quando o simbolismo do “capital alienígena” passa no filme de algo virtual para algo real, a lógica se subverte: os primos deixam de ser os “loucos” e o resto do mundo assume esse papel. Bugonia faz um movimento arriscado quando tenta retratar as condições paranoicas dos sequestradores de uma forma humorística e sarcástica, mas, ao confirmar a conspiração, o filme acaba por validar tais delírios, fazendo com que a perspectiva que vincula diretamente o capital à perpetuação de patologias mentais — explorada, por exemplo, por Mark Fisher em Realismo Capitalista (2009) e Fantasmas da Minha Vida (2014) — seja invalidada. Ou seja, traumas de infância protagonizados pela ganância do capital simbólico que aqui explora clinicamente familiares como cobaias, somados às condições trabalhistas às quais a personagem é posteriormente submetida na vida adulta, por consequência levam a pessoa à loucura, podendo torná-la, inclusive, um assassino paranoico e conspiracionista de extrema-direita. Exceto que… essa pessoa é que está certa?

Contemporâneo ao lançamento de Bugonia, o mundo assiste ao escândalo de Jeffrey Epstein. O espaço digital deste tempo, basicamente liderado pelos EUA e suas Big Techs, permite diversas teorias que parecem absurdas, racistas ou eugenistas, mas ganham tração em fóruns e chans de extrema-direita. Contudo, como mostra este escândalo, nem toda teoria conspiratória é mentira. Confirmar cinematograficamente essas conspirações, mesmo que de uma forma agressiva e extrapolativa, utilizando-se de alienígenas na tentativa máxima de deixar clara a intenção de pintar este extremismo como estúpido, pode, no fim, oferecer munição perigosa ao discurso de extrema-direita. O filme é ambíguo: ele permite uma leitura plural que pode gerar identificação com os “Dons e Teddys” do mundo real. A previsibilidade do plot parece tentar evitar justamente isso, mas o filme torna-se problemático ao abandonar a sutileza da dúvida que permeava a sua primeira metade. Dessa forma, a esquizoanálise e o realismo capitalista de Fisher perdem espaço para o aceleracionismo de direita de Nick Land. O paralelo com Land — filósofo inglês cujas ideias recentemente foram resgatadas por figuras como Elon Musk — é direto. Em ensaios como “Machinic Desire” (1992) e “Meltdown” (1994), Land descreve o capital como uma inteligência artificial anti-humanista e alienígena destinada a superar a humanidade destruindo-a. Bugonia parece chancelar essa visão ao conferir à “corte intergaláctica” uma missão positiva: salvar a humanidade de si mesma através do domínio corporativo.

“Freud characterizes trauma as an ‘invasion’, ‘a breach in an otherwise efficacious barrier against stimuli’, infiltrating alien desires — xenopulsions — into the organism.” — Land, Nick. Machinic Desire. 1993.

O discurso corporativista que permeia o filme flerta com a ironia, como se o diretor soubesse que a audiência reconhece o cinismo deste tipo de fala. O comentário de Teddy — “99,9% do ativismo é uma estratégia de autopromoção de marca” — ecoa o vazio presente dos discursos de sustentabilidade das Big Techs. Entretanto, ao confirmar a natureza alienígena do capital, o roteiro valida que esse discurso advindo de um  corporativismo hipócrita representado por Michelle se torne verdadeiro. Toda a exploração do trabalho ou as pesquisas feitas de forma antiética seriam, na verdade, ações boas carregadas de bondade, providas à humanidade por uma raça superior que tentava salvar o planeta . Embora a alegoria do capital alienígena não seja de todo ruim, o filme falha ao não direcionar sua força crítica para o lugar correto: a exploração da vulnerabilidade mental pelo sistema. Em vez disso, valida o discurso que pode cooptar outras pessoas potencialmente perigosas, transformando o que seria dois “doidinhos de bairro”, em detentores da verdade absoluta e universal. O ano de 2026 exige cautela ao tratar de temas conspiracionistas que possuem ancoragem na realidade. Em um mundo onde a economia é direcionada pela IA, a ciberespaço é controlado por Big Techs no vale do silício, e os documentos oficiais de um dos maiores escândalos políticos dos EUA são lançados redigidos extensivamente, não é de se surpreender que a permeabilidade de discursos conspiratórios. É sim preciso revisitar a alegoria do capital alienígena IA que sequestra o futuro proposta por Nick Land — que recentemente foi fotografado em uma festa na Califórnia com Grimes e Curtis Yarvin — parece fazer tanto sentido para certas figuras como Elon Musk e crescer neste meio. Retratar a paranoia da internet é necessário, mas deve ser feito sem inflamar ou validar discursos que, fora das telas, alimentam movimentos profundamente antidemocráticos e antihumanistas.

— Aldo