surpresa ou guilhotina

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fui pego desprevenido.

o vento havia cessado. o som palpitante, o frescor a tender seco, o funcionamento do mundo em si: tudo por um instante parou de ser. até que percebesse, alertado pela súbita onda de calor. tentei lentamente levantar o cobertor de forma a abrir espaço para a brisa, mas estagnava-se o ar no quarto. respirei fundo e enchi-me de toda a coragem que pude reunir covardemente: olhei. como uma corda tensionada, uma navalha, uma guilhotina, fui súbito e certeiro. mesmo assim, a vida foi ainda mais rápida. quando iniciei de verdade o movimento, mesmo, ou melhor, precisamente, antes que visse o impossível, senti o ventilador a funcionar. e a vida seguiu, incontestada.

algum dia, quiçá, serei veloz o bastante para pegá-la desprevenida e alcançar a hélice parada.

– Ian