Tal qual meu companheiro de blog, recentemente fui bombardeado em mídias diversas pelo math-rock repleto de bolinhas pretas e brancas da banda canadense Angine de Poitrine. Curiosamente, sou da mesma opinião: trata-se de uma banda interessante e divertida, porém que dificilmente eu chamaria de genial. E, embora a crítica tenha apresentado uma visão positiva da dupla no geral, fui exposto também à minoritária porém insuportável opinião dos eruditos e necrófilos culturais a ressaltar vez após vez como o som da banda, longe de ser tecnicamente impressionante ou inovador, era tedioso. “O que o grande público costuma considerar inovador e revolucionário tende a dar sono em quem sempre escutou música fora do ambiente pop”, disse um crítico infeliz que me apareceu por aí.
Dito isso, refletindo sobre a frase e a discussão em si, percebi que via como deslocada toda essa comparação. Curiosamente, mesmo chegando na mesma opinião final que meu parceiro, o fizera por uma rota completamente distinta, com uma ótica quase que diametralmente oposta à sua análise musical em dois eixos no artigo anterior.
“Art is a state of encounter.”
– BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
Longe de mim comparar tecnicamente o duo canadense às lendas do rock progressivo, como Spinetta, do qual sou também um ávido fã. Pelo contrário, concordo que a banda passa longe da genialidade técnica, e que seu principal destaque, para mim, é no campo estético e na formação de um movimento e culto online de forma rápida e massiva. Entretanto, esse caráter é tão louvável quanto a maestria instrumental, a meu ver. Nicolas Bourriaud, crítico de arte francês e responsável pelo Palais de Tokyo, em Paris, faz um trabalho interessante ao definir a arte como relacional, ou seja, “que toma como seu horizonte teórico o reino das interações humanas e seu contexto social, em vez da afirmação de um espaço simbólico independente e privado” (BOURRIAND, 2009).
Para Bourriaud, a arte não deve ser julgada apenas pela sua “forma” (as notas, a técnica), mas pelo horizonte de interações que ela cria. O valor de Angine de Poitrine não está apenas no compasso, mas na comunidade que se forma em torno das máscaras, dos memes e da experiência compartilhada no cyberespaço. O sucesso digital não é apenas métrica de venda, é também a apropriação dos meios de produção digital para criar um “comum” (a comunidade) que ignora em parte os mediadores da velha indústria fonográfica. A música hoje é um “estado de encontro”.
Dessa forma, acho cabível, de certo modo, a comparação da dupla Angine com o dadaísmo de Marcel Duchamp e seus readymades, em especial “A Fonte” (1917), e também ao suprematismo russo da obra “O Quadrado Preto” (1915), de Kazimir Malevich. Não no nível de genialidade, impacto ou grau de disruptividade do movimento, nos quais as duas obras do século XX estão muito à frente, mas sim meramente na forma em que apresentam obras artísticas completamente válidas pela excelência não necessariamente técnica, mas do horizonte de interações e sentidos.
Essa ótica é corroborada também pelo pedagogo estadunidense John Dewey, que define que:
“A arte não é o objeto acabado, mas a experiência que ele proporciona”.
– DEWEY, John. Arte como experiência. Tradução de Vera Ribeiro. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
Se a banda faz milhões de pessoas pararem para assistir e interagir, ela está cumprindo uma função talvez tão louvável quanto qualquer acorde: gerar subjetividade coletiva em uma era de isolamento algorítmico. Ao se perder no reducionismo, seja em tecnicismos ou no caráter estético, ignora-se o pulso da cultura viva, tanto como jogo, conforme discutirei a seguir, quanto experiência, como relação e estado de encontro de uma miríade de componentes.
Mais ainda: como unidade.
“As obras de arte são mônadas: cada uma delas, por seu próprio impulso, representa o mundo ao mesmo tempo que se mantém hermeticamente fechada em relação a ele.”
– ADORNO, Theodor W. Teoria estética. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1970.
Mais ainda do que entender como igualmente interessante os caráteres estético e técnico em uma obra musical, Adorno dá um passo além e os conceitua como indivisíveis. Tomando o conceito de mônada, a substância simples, indivisível, imaterial e independente que compõe a realidade para Leibniz, o autor da Escola de Frankfurt coloca a arte como uma unidade que não pode ser rompida e esmiuçada livremente.
Assim como a mônada de Adorno não possui partes separáveis, a arte é uma unidade dialética. Tal qual a arte, uma frase também é infragmentável ao mesmo tempo que é composta de fragmentos, palavras individuais que, juntas, formam um todo léxico e semântico. Entretanto, ao pegarmos individualmente as palavras que compõe a frase, perdemos completamente todo o seu sentido, toda nuance, toda a forma monádica da partícula una.
Tentar realizar uma autópsia técnica na banda canadense falha porque a mônada só “representa o mundo” enquanto inteira e pulsante. Fragmentá-la para análise é, por definição, esfaquear e destruí-la.
“A cultura não é um depósito de coisas, mas um fluxo de informações.”
– FLUSSER, Vilém. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
O filósosfo tcheco Vilém Flusser também constrói de forma bem similar ao dizer que, atualmente, a partícula artística é parte de uma rede, sendo inseparável de cada um de seus fios à medida que se desfaz quando são removidos para a análise. Isso só se intensifica com o avanço do caráter telemático no qual nos inserimos, no qual pessoas usam imagens técnicas para criar novos diálogos, compondo o processo da dialogicidade.
Propondo o ideal do “Homo ludens”, Flusser defende o caráter lúdico do engajamento com a arte, na forma do “jogo”. O público de Angine de Poitrine, organizado em uma comunidade capilarizada digitalmente, não é apenas passivo, e sim composto de jogadores; o visual da banda e sua presença digital, associados a seu som em si, servem como “imagens técnicas” que funcionam como pontos de aglutinação para a vivência do pós-histórico. Não apenas consumir um ídolo, e sim participar de um jogo interativo onde a máscara do artista permite que o público também projete sua identidade em um mundo multidimensional e simultâneo. Ao abraçar-se o “estranho”, a microtonalidade “pop” e a fragmentação digital, integra-se tanto o Zeitgeist, quanto o “jogo” e a “rede”.
Esse caráter lúdico traz em si também outro aspecto incrivelmente presente na comunidade da banda: o divertimento, aspecto que explica em parte a formação genuína e espontânea de um grupo tão unido sob a “gimmick” que vejo ser a real alma do projeto. Tanto o caráter técnico, quanto o estético, quanto o comunitário, quanto o divertido, são partes do todo, dessa estrutura monádica e lúdica que, se analisada separadamente à força, deixa de fazer sentido.
A diversidade e a “diversão” são, talvez, os elementos mais progressivos da banda. Não digo progressivo como no movimento específico do rock progressivo, mas em progressivo como disruptivo e interessante. O prazer de descobrir e consumir um som nascente enquanto se engaja com uma comunidade, seus símbolos e formas de diálogo é o prazer do jogo.
“A repetição é uma condição da ação antes de ser um conceito de reflexão. Só produzimos algo novo sob a condição de repetirmos.”
– DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Tradução de Roberto Machado e Luiz Orlandi. Rio de Janeiro: Graal, 1988. p. 90.
Essa recusa da profundidade puramente técnica em favor da superfície vibrante também evoca de certa forma a ontologia deleuziana. Em sua obra “Diferença e Repetição”, Deleuze propõe que o novo não surge apenas do virtuosismo linear, mas da força de uma repetição que “é uma condição da ação antes de ser um conceito de reflexão” (DELEUZE, 1988). Para ele, a generalidade pertenceria à lei e à ciência, com a arte lidando com o que é insubstituível. Ou seja, por ser singular, a arte, e, consequentemente, a música não pode ser “explicada” ou “generalizada”. Ela só pode ser repetida, ouvida e reouvida para que sua diferença interna se manifeste. Ultimamente, a música é algo que se faz, uma ação com a repetição como motor, não algo que apenas reflete-se.
Para o crítico infeliz cujo “que o grande público costuma considerar inovador e revolucionário tende a dar sono”, escapa que a pele lúdica da banda não é meramente um disfarce para a simplicidade ou mediocridade, e sim o campo de forças onde a repetição pode deixar de ser tédio para se tornar um dia algo interessante.
A música, baseada em repetição, é um pensamento de ação, exigindo a presença e o corpo. Erra-se ao tentar transformá-la em um conceito de reflexão, ou seja, ao tentar analisá-la com ferramentas frias e divisoras. Erra-se também em ignorar que, na própria repetição, em especial considerando-se o caráter nascente da dupla, jaz o potencial de algo ainda mais interessante: é difícil analisar a música como se fizesse uma autópsia enquanto a banda está ocupada ainda em processo de parto.
Em resumo, como meu parceiro, concordo que a banda é divertida e interessante, mas dificilmente genial como diz grande parte da crítica. Apenas discordo ao dizer que a música, como um todo, é-me indivisível, e vejo como tão válido e louvável a excelência estética quanto a técnica.
Apesar disso, é sempre interessante a cooperação entre as duas, tal qual é com a cooperação entre aqueles com pontos de vista tão compreensivelmente distintos a chegar, por fim, no mesmo lugar.
Já ao solitário crítico sonolento do vídeo, talvez seja melhor que durma lá em sua torre de marfim.
Afinal, a cultura viva pulsa, e não me apetece muito esmiuçá-la e olhar com uma lupa seu nervos esplâncnicos.
A arte é incomensuravelmente ampla. Mais que uma coleção de notas e nervos, é também o jogo, o lúdico, a experiência, o horizonte de interações, o estado de encontro, a mônada, a rede, o infragmentável composto por fragmentos, a repetição, o ardor-instante, (ad infinitum).
A arte é em si também o ad infinitum.
-Ian
