sobre

MIR

Eu sou uma formiga d’água.
Eu sou o senso de direção de um poste.
Eu sou tudo que não é um calvário.
Eu sou a concretização de uma corrida.
Eu sou o que resta de uma multiplicação.
Eu sou a presa do devorador de entropia.
Eu sou o flautista que não toca flauta.
Eu sou a acne alfanumérica.
Eu sou o desejo do plasma.
Eu sou o caramujo asqueroso.
Eu sou o pesadelo dos anacoretas.
Eu sou a perdição de Pompéia.
Eu sou o canibalizador de lábios.
Eu sou o pseudobezoar.
Eu sou o amálgama de segredos úmidos.
Unido pela carne e pela palavra retida.
Indigesto. Labiríntico. Contrário à saída.
Eu sou a fúria do LAGARTO MANCO.
O descendente das primeiras amebas.
Sou o poeta sem anjo torto.
Anti-galante. Permissivo. Antropofágico.
Eu não sou tudo, eu não sou nada,
Eu sou um meio termo entre dois extremos antípodas da existência.
Vontade. Representação. Ponte.
E meu lamento é inaudível.
Cego, eu vejo. Surdo, eu grito.
Tumbas não me assustam,
Tampouco a poeira.
Tenho pena de quem me tem pena.
Eu sou a pena do poeta
E também seu coração chagásico.
Ou seja,
Eu sou o coração chagásico de Ian.
Eu sou o fígado cirrótico de Leonor.
Eu sou a glândula sebácea de Clotilde.
Eu sou o compartimento plasmático de Anaís.
Eu sou o segredo úmido de Walter.
Eu sou a úlcera amigável de Suelen.
Eu sou o corte recém aberto de Simeão.
Eu sou o cuspe proibido de José.
Eu sou o batimento arrítmico de Daniel.
Eu sou o dedo calejado de Raimundo.
E
Mais ainda
Que tudo isso
Eu
Sou
A poesia indomável que corre por todas as (suas) veias (deles).

– DIAS, Ian. Lucinda, amores e outros contos. p. 62–63.